Sunday, September 17, 2017

Um dia

Me desculpa
se falei demais
Se falhei ao ser
pra você o que queria mais
Me desconte
um valor
que eu mereça pagar
minha conta
é pura dor
não dá mais pra aguentar

Me desculpa
Me desconta


Se você
dissesse que talvez
em outra ocasião
e eu lhe perguntasse o porquê
Em silêncio
tudo que tentei dar pra você
desmoronaria
sem chance de reverter
 
Não importa mais
já que tanto faz


Um dia, na beira da praia
eu construí um castelo de areia e água
e depois desmoronei tudo
desmoronei tudo
 
Um dia, no meio da rua
eu desenhei um planeta acompanhado de uma lua
e depois apaguei tudo
eu apaguei tudo



Friday, September 30, 2016

A esmo

Para Vivian


Nada do que eu diga agora faz sentido,
e tanto faz já o tudo que disseram.
As frustrantes sensações que se impuseram
são por nada mais poder ser revertido.

Dito isso, só queria dizer agora
que sei que não existe nunca boa hora
para se dizer adeus ou pra silenciar
no momento em que é preciso ir embora.

Mas por saber da forma como aconteceu
e por imaginar o sofrimento do instante,
não posso deixar de me impactar
com o gesto daquele inútil meliante.

Fui pego de surpresa após 30 dias,
depois de insistentes notificações
que construíam mil e uma teorias
profetizando suas novas aparições.

Fiquei pensando nesses anos de silêncio
e nos tantos silêncios que acumulamos,
nos amigos que se foram nesse tempo
e nos que de vez em quando ajudamos.

A Maria vai bem, animada, e a Leci
- dessa não dá pra dizer o mesmo.
A sua filha Tâmisa, enfim, eu conheci
pela nota jogada na internet a esmo,
o Zé Reinaldo há tempos não vem a Natal,
sobre Márcia ninguém mais falou,
tá tudo em branco, tudo assim, sem sal,
como aquelas fotos que você mandou.

Ficam aquelas boas lembranças de amigo,
apesar de toda a sensação ruim.
Nada do que eu diga agora faz sentido,
não existe boa hora para o fim.

Thursday, March 27, 2014

O meu recado

Eu trafego de trem,
de carro,
de moto...
Eu noto as pessoas
que vão e vêm.

Eu sei que tem
algo de estranho
nos tantos passos
que tais pessoas
às vezes seguem
para seu bem.

Talvez se faço
algo de novo,
talvez se escrevo
um novo traço
e se ofereço
para esse povo,
entenderão
o meu recado?
Por outro lado,
já não me resta
drama ou grana,
descanso ou festa,
abraço, olhares,
paisagens, mares,
tantos lugares,
nada mais presta.

Então desfaço
o que pensei
porque agora
o que falei
já não diz nada
já não me serve
nem como fuga,
nem como lei.


Monday, November 19, 2012

Passado, presente e futuro

Vi hoje uma foto:
era eu em minha moto.
Mas essa foto era diferente.
Havia uma mudança aparente
no meu ar, no meu estado
e no local em que fui retratado.
Havia umas árvores perto, uma casa amarela,
e uma graça no clima que essa foto congela.
A partir dela, busquei mais,
sendo poucas delas convencionais.
Retratavam gestos, olhares, cores,
crianças, artistas, atores,
alegria, euforia, tristeza,
energia, momentos, beleza.
O passado dessas fotos não me pertencia,
mas o significado eu entendia.

***

Desculpa
a ira,
a arma,
a mira,
se miro
em você.
Desculpa
o fato,
o formato,
o relato,
que faço
sem querer.
Perdoe
meu jeito,
trejeitos,
meu baixo
conceito,
meu modo,
indiscreto,
se incomodo,
se afeto.
Desculpe também
o fato de você
precisar repetir
com frequência
(incansável)
a necessidade
de sensibilidade,
que com muita demência
sempre esqueço
(inaceitável).

Desses sintomas,
quero me livrar.
Lamento
por tanto
faltar.
Portanto
amar
será meu idioma

pra te acalmar.

Thursday, August 16, 2012

Aquela voz metálica

Na verdade, o amor
não prenuncia nenhuma dor.
Quando estou junto dela,
tiro das coisas a cor,
guardo junto comigo,
e o tempo congela.
Quando estamos a sós,
fico atento à sua voz,
que, metálica e doce,
é uma canção entre nós.
E tudo que juntos rimos,
dividimos com os mimos,
e as tristezas eliminamos
com uma eficácia atroz.

Sunday, January 08, 2012

Soneto do viajante

A estrada que leva ao pico
leva a outros lugares mais.
Leva a sonhos e desejos,
tantas visões especiais.

Na estrada em que viajo
e vejo céu, asfalto, pastos,
a cada segundo me encorajo
e os ventos, comigo, arrasto.

Na estrada em que te busco, pois,
não sei se existe mais alguém
naquele verde e mais além.

E na minha moto temerosa
persisto nessa viagem deliciosa
só com a meta de juntar nós dois.

Monday, December 05, 2011

Por muito mais que aqueles dez segundos

Do teu sono, só me lembro o lapso
no colapso da noite confusa.
De você, só me lembro musa
no contexto dessas ilusões que traço.

Dos teus cílios, só me lembro como,
sincronizados, se entrelaçavam,
e como teus lábios, ainda que cerrados,
discretamente se movimentavam.

Do ambiente, lembro-me do vento
noturno, frio e maltratando a gente,
porque para o mar virei as costas,
somente pra você ficando atento.

Mas o meu intento é mais profundo
do que somente esses passeios por aí.
Por muitas vezes ainda te quero ver dormir
e por muito mais que aqueles dez segundos.